Urussanguense cria máquina de espremer uva movida com furadeira
February 5th, 2010
Ao invés de buscar a ociosidade após a aposentadoria, o urussanguense Valentin Vilmar De Lorenzi Cancellier resolveu transferir sua residência do Bairro da Estação para a localidade de Rio Maior e usar o seu talento, a criatividade e o amor às tradições italianas para criar uma máquina de prensar uvas, que é movida por uma furadeira elétrica.
O fato inédito na região foi fotografado pelo diretor deste semanário- Sérgio Costa e descrito pelo engenheiro agrônomo e colaborador deste semanário- Sérgio Roberto Maestrelli.
Valentin: uva, vinho e canto
Das origens do Rio Maior
O meu inesquecível amigo e irmão de idéias, Monsenhor Agenor Neves Marques escreveu que o Rio Maior possui uma grande história de sofrimento e superação constante. Uma história de pessoas que não se ajoelharam na estrada apesar do pesado fardo nos ombros. Uma história de pessoas que a partir de 1878 souberam fazer o silêncio falar, que com trabalho e suas obras souberam marcar, com suas alegrias e amarguras souberam cantar, que com fé no futuro, os passos daqueles que andaram por este chão souberam registrar. O Rio Maior foi colonizado por imigrantes provenientes do Norte Italiano basicamente da localidade de Erto-Casso, província de Udine, principalmente das famílias Mazzucco, Cancellier, Canever, Frol, Manarin, Dinon, Bocardo, Barzan, Fabro, De Nez, Pilon, Tezza, Giordani, De Lorenzi… Alguns imigrantes eram provenientes de Castel Lavazzo e comunes vizinhas. Famílias que souberam transmitir para seus filhos, netos e bisnetos, enfim para a posteridade, os seus principais traços culturais, traços estes, ainda fortes e marcantes nos dias atuais. Um desses traços culturais se vislumbra na habilidade do trabalho artesão. Com braços e com suas almas, eles conseguiram penetrar nas rochas, na madeira e com habilidade moldaram casas, templos, indústrias artesanais nos legando cultura, arquitetura, atafonas, engenhos, serrarias e dezenas de máquinas simples, porém engenhosas, que tornavam o trabalho mais operacional, mais humano e menos desgastante. Na sequência, em três atos, o homem, a máquina, o produto.
O homem
Valentin Vilmar De Lorenzi Cancellier é um dos seis filhos do casal Rômulo De Lorenzi Cancellier e Marcolina Mazucco. Aos 62 anos, já aposentado, Valentin exerceu as profissões de agricultor, pedreiro, carpinteiro, é ex-funcionário da Ceusa e também pauta a sua vida em ações comunitárias, sendo membro do Movimento de Irmãos e membro da Associação Coral Santa Cecília, desde 1977. Aposentado, o ex- morador do histórico Bairro da Estação, adquiriu 3 hectares de terra da antiga propriedade rural de Danúncio Bendo, em Rio Maior, mais precisamente na recém batizada Vila Belmonte, onde recentemente construiu a sua nova residência. Livre para praticar o “dolce far niente”, Valentin dosa o seu tempo entre a carpintaria, produção de vinho e o canto sacro e folclórico. Canta, faz vinho, trabalha a madeira e observa a natureza exuberante da Vila Belmonte com sua mata atlântica, pastagens, peixes e um riacho que nasce na montanha (no Belmonte), atravessa pastagens e deslizando sobre pedras, velozmente procura seguir o seu destino unindo-se ao Rio Maior que no Bairro Nova Itália irá receber o abraço de morte do Rio Carvão. Valentin personifica a máxima latina, afirmando que quando se gosta do que se faz, trabalho vira lazer e lazer vira trabalho.
A Máquina
Arte em madeira acoplada a uma furadeira transforma uva em vinho e ajuda a manter viva uma tradição do município de Urussanga.
Em sua oficina de artífice e mestre da madeira, instalada numa construção decorada por inúmeros artefatos e objetos antigos característicos da imigração, Valentin construiu pacientemente a sua esmagadeira de uva. Com o objetivo de se livrar do cansativo esmagamento manual, resolveu, mediante um sistema de correias, acoplar a sua velha furadeira de 20 anos de carpintaria que, por sua vez, aciona o conjunto esmagando a uva. É a herança “genética” que se renova e se aprimora a cada nova geração. “Inventar ferramentas e pequenas máquinas está no sangue dos antepassados e está também no meu”, comenta Valentin. Observar o sistema em movimento, ver a uva sendo esmagada nos proporciona satisfação, agita o espírito e eleva a alma. O vinho colonial é produzido por um italiano, mas como a furadeira é “Bosch”, não podemos negar que existirá também neste vinho, um tempero alemão, um tempero germânico. Em menos de 15 minutos, a velha furadeira aposentada esmagou cerca de 350 kg de uva bordô. Esmagar a Goethe somente em 2011, afirma Dona Ilza.
O Produto
Descemos por uma escada e estamos no porão. Litros, garrafões empalhados, vidros de conserva com produtos orgânicos e aquele odor de uva e vinho no ar. Numa prateleira, queijos e salames. Num ambiente com limpeza e higiene impecável está sendo produzida a primeira safra.
São 1.000 kg de uva, que serão transformados em vinho, vinagre e suco para o consumo familiar, dos vizinhos (Famílias de Raul Gislon, Cidati Savi Mondo, Antônio Zucco e Ricardo Freitas) e principalmente dos amigos. Neste ano apenas 1000 kg, pois como afirma Valentin, “nunca se começa a subir uma escada pelo 3º degrau e sim pelo 1º”. Há perdas nas parreiras devido ao tempo, mas os antigos “nonnos” diziam: Do parreiral, 50% para nós, 25% para os passarinhos e abelhas, 20% para o próprio tempo e 5% para a própria videira. A natureza por intermédio de Deus nos dá a uva e isso não significa que toda ela deve ser unicamente nossa.
Do Brinde
Dona Ilza nos prepara uma mesa farta de produtos. Queijos, salames, pão, suco de uva, vinho colonial, conservas… Do tilintar das taças, vários brindes: Um brinde aos nossos antepassados que foram vencedores, pois se fossem perdedores hoje nós não existiríamos; um brinde à Família De Lorenzi Cancellier; um brinde à saúde; um brinde para que o Senhor nos livre dos anos difíceis, dos “anni massa brutti, dos anni brutti”, como dizia minha Nonna Rosina; um brinde a um futuro promissor para os nossos filhos; um brinde a Urussanga; um brinde para…. Chega. Está na hora de irmos embora. Agradecemos os bons momentos daquele sábado de chuva forte na Vila Belmonte, Valentin e Dona Ilza.
Mas não nos provoque que voltaremos!
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