Denúncias de tortura e morte suspeita na Colônia Penal Feminina de Buíque

Tortuta na colônia penal de Buíque
Tortuta na colônia penal de Buíque – Foto: Reprodução

Um conjunto de relatos obtidos com exclusividade pelo Correio de Notícias revelou um cenário alarmante de tortura, maus-tratos e uma morte suspeita dentro da Colônia Penal Feminina de Buíque, no Agreste de Pernambuco. As denúncias, feitas por ex-detentas e familiares, traçam um retrato de violência, humilhações e abandono institucional no sistema prisional feminino do Estado.

De acordo com os relatos, agentes e servidoras da unidade estariam envolvidos em agressões físicas e castigos desumanos, o que teria criado um ambiente de medo e repressão. As mulheres relataram perseguições, ausência de visitas e inspeções, além de condições degradantes de convivência.

Leia também: Idoso morre atropelado na PE-270, em Tupanatinga, e motorista foge sem prestar socorro

Outros depoimentos apontam que presas eram obrigadas a permanecer nuas em celas isoladas, sob o argumento de prevenção ao suicídio, mas sob vigilância constante e agressões físicas. “Dizem que é pra evitar suicídio, mas os agentes batem na cabeça pra não deixar marca no corpo”, relatou uma ex-detenta.

Entre os casos mais graves está o de Mychelline Martins da Silva, encontrada morta dentro da unidade. Embora a versão oficial aponte suicídio, familiares e ex-presas questionam as circunstâncias da morte. “Mandaram todo mundo ficar de bico fechado pra não prejudicar mais ainda”, disse uma das fontes ouvidas pela reportagem.

Tortuta na colônia penal de Buíque

A família denuncia que não pôde ver o corpo, sepultado em caixão lacrado, e que não houve necropsia nem exame de corpo de delito. Uma carta escrita por Mychelline e endereçada à Defensoria Pública, um dia antes da morte, reforça as suspeitas de violência institucional.

Na carta, escrita de próprio punho, Mychelline descreve sofrimento, castigos e abandono dentro da Colônia Penal. Ela relata que ficou 30 dias no castigo, dormindo “na pedra” e usando a mesma roupa, mesmo com queimaduras no corpo. “Venho lhes pedir para que me ajude na volta o mais rápido possível, para que eu possa voltar pra perto da minha família”, escreveu.

Superlotação e negligência

As denúncias reforçam o quadro de superlotação e negligência, já que a unidade, com capacidade para 107 mulheres, abriga atualmente mais de 320.

Diante da repercussão, órgãos públicos estaduais se manifestaram. A Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Prevenção à Violência afirmou que, por se tratar de caso sigiloso, não pode divulgar detalhes, mas garantiu que o Mecanismo Estadual de Prevenção e Combate à Tortura (MEPCT/PE) segue realizando visitas e monitoramentos em unidades prisionais. O órgão também destacou a atuação da Ouvidoria de Direitos Humanos e reafirmou o compromisso do Governo de Pernambuco com a dignidade humana e o combate à tortura.

A 8ª Promotoria de Justiça Criminal de Caruaru, responsável pela área de Execuções Penais, informou que acompanha o caso e que o Instituto de Criminalística de Arcoverde realizou a perícia no local, enquanto o corpo foi levado ao IML de Caruaru, onde foi emitida a declaração de óbito nº 39203917-6. Após a morte, internas se revoltaram, o que resultou em tumultos e transferências de detentas.

📲 Fique por dentro das notícias de Arcoverde e região!
Receba atualizações, coberturas exclusivas bem como os destaques do dia direto no seu WhatsApp.
👉 Clique aqui e entre no canal oficial do Portal Panorama

De acordo com o Ministério Público, uma inspeção foi realizada em 23 de setembro de 2025, sem constatar indícios de tortura naquele momento. Contudo, diante das novas denúncias, o órgão requisitou novas informações e avalia diligências complementares, podendo acionar novamente o Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura.

A Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap) afirmou que acionou a Polícia Civil para investigar o caso e aguarda o resultado do exame tanatoscópico feito pelo IML. Já a Defensoria Pública e a Polícia Civil ainda não se manifestaram.

O caso reacende o debate sobre as condições das prisões femininas em Pernambuco, revelando a fragilidade da fiscalização e a urgência de medidas efetivas para garantir os direitos fundamentais das mulheres privadas de liberdade.

#Compartilhe clicando em uma das opções abaixo
Clara Melo
Clara Melo
Artigos: 1710

Deixe um comentário