
Por Namon Bezerra
Em política, nada é mais traiçoeiro do que a ilusão do favoritismo consolidado. A história eleitoral de Pernambuco guarda na memória viva a reviravolta de 2000, quando Roberto Magalhães parecia marchar a passos largos para uma reeleição incontestável na Prefeitura do Recife. O caldo, contudo, já vinha entornando desde o destempero em que Magalhães invadiu, armado, a redação da Rádio Jornal para tirar satisfações sobre críticas da imprensa. O golpe de misericórdia veio na reta final: a fatídica “banana” dada na Avenida Boa Viagem aos eleitores contrários. Vinte e seis anos depois, a recente e estarrecedora declaração da governadora Raquel Lyra evoca exatamente esse mesmo tipo de fantasma político.
A declaração resgatada na reta final da campanha, na qual a governadora sugere realizar uma laqueadura em uma gestante humilde “sem ela saber”, vai muito além de uma simples gafe retórica. Trata-se de uma fala que fere frontalmente a dignidade humana, a autonomia reprodutiva e a legislação brasileira, que tipifica a esterilização não consentida como crime. Quando uma governante que construiu boa parte de sua projeção sobre o arquétipo da sensibilidade materna e da defesa das mulheres solta uma frase dessa magnitude, o estrago simbólico é imediato e avassalador.
Para além do erro em si, o comportamento do comitê governista revela o tamanho do abalo: Raquel Lyra e sua equipe claramente sentiram o golpe. A postura em campo passou a ser tímida, esquiva e reativa. Em vez de partir para cima do adversário com o arsenal de contradições históricas que o cerca, a governadora tem se limitado, nos debates, a martelar o caso pontual do escândalo do fura-fila em concurso público da Prefeitura do Recife. Trata-se de uma estratégia míope e covarde, que apequena o confronto.
Ao se prender a esse único flanco, Raquel parece convenientemente esquecer o verdadeiro histórico de escândalos do PSB em Pernambuco: calam-se sobre a emblemática Operação Casa de Farinha, fecham os olhos para o rastro de investigações e operações da Polícia Federal que cercaram as gestões de Geraldo Julio e Paulo Câmara e ignoram os fartos inquéritos que rondam contratos e compras da atual gestão municipal na capital. Essa hesitação em confrontar o histórico da oposição em sua totalidade soa como puro recuo tático de quem perdeu o eixo moral da campanha e teme que qualquer contra-ataque mais incisivo vire munição de volta.
O grande paradoxo dessa crise, contudo, reside no cenário que se desenha diante do eleitor pernambucano. Por mais indefensável que seja a autossabotagem de Raquel Lyra, a alternativa colocada à mesa consegue ser ainda mais desoladora: João Campos representa, de longe, a pior escolha para o futuro de Pernambuco.
Ver o projeto político de João Campos ganhar tração não por virtudes próprias ou por propostas sólidas para as carências estruturais do estado, mas sim pelo tropeço trágico da governadora, é um roteiro indigesto. Trata-se da consagração de um modelo político ancorado no marketing meticuloso das redes sociais, na blindagem da imagem e na perpetuação de um ciclo de poder que acumulou desgastes profundos ao longo de dezesseis anos à frente do estado.
A eleição de 2000 ensinou que a soberba e os atos intempestivos custam caro nas urnas. Magalhães perdeu por menos de 6 mil votos após insultar quem discordava dele e carregou o peso de suas atitudes agressivas. Se a “banana” de Boa Viagem e a arma na rádio custaram o poder àquele grupo, a infeliz sugestão de laqueadura clandestina, somada à covardia de uma campanha que baixou a guarda para o passado do PSB, pode abrir as portas do Palácio das Princesas. O eleitor pernambucano se vê, assim, diante de um teste amargo: punir o desrespeito explícito de uma governante em campanha, entregando o estado exatamente àquilo que representa a pior e mais desgastada alternativa política local.







